COLONIALISMO FRANCÊS E RESISTÊNCIA AFRICANA

COLONIALISMO FRANCÊS E RESISTÊNCIA AFRICANA

Como já foi dito, a expansão colonial europeia na África do Oeste ganhou impulso na segunda metade do século xix. Desde 1840 a companhia dos irmãos Régis, de Marselha, ocupava o forte francês de Uidá, transformado em feitoria comercial. Embora houvesse suspeitas de seu envolvimento inicial no tráfico de pessoas escravizadas, a casa Régis e outras, como Cyprien Fabre, foram investindo cada vez mais no azeite da polpa do dendê e em suas nozes, mercadorias do chamado “comércio lícito”, cujos ciclos de cultivo e processamento tinham sido, até então, controlados pelos africanos. O azeite interessava cada vez mais ao comércio europeu. As máquinas da Segunda Revolução Industrial precisavam de lubrificantes, os operários haviam se acostumado a comer margarina, e tais produtos eram fabricados com derivados do dendê, cujo óleo era também a base para a manufatura do famoso sabão de Marselha.33 Para otimizar a exportação dessa matéria-prima era necessário garantir portos de embarque seguros, e vários tratados franco-daomeanos foram orientados no sentido de obter vantagens comerciais no litoral.

Fig. 16. Filtragem do azeite de dendê e acondicionamento em tonéis num entreposto comercial europeu.
Fig. 17. A venda de armas europeias aos africanos.

Aos motivos econômicos somavam-se outros de caráter político, que estimularam, igualmente, a conquista territorial. A derrota para a Alemanha (Prússia) em 1870 deixara os franceses ansiosos por marcar presença em outras regiões. No caso específico do que veio a ser a colônia do Daomé, os antigos entrepostos e protetorados franceses na costa estavam espremidos entre o Togo alemão e a colônia britânica de Lagos. Empenhada em assegurar a sua parte junto às outras potências, a França almejou criar a ligação entre a saída para o mar e suas vastas possessões mais ao norte, por onde passava o rio Níger. A penetração francesa para o interior do hoje Benim se deu a partir de Cotonu e Porto-Novo no ano de 1892.

Novas tecnologias, não apenas bélicas, garantiam a supremacia europeia. A engenharia do aço, por exemplo, permitiu a construção do píer de Cotonu, o que veio a assegurar o desembarque das tropas do líder da conquista francesa, o coronel Dodds, alçado a general após a tomada de Abomé. Havia uma barreira natural que deixava os europeus à mercê dos africanos: ondas imensas agitavam a barra infestada de tubarões, tornando embarques e desembarques muito lentos, perigosos e custosos. A barra só era transposta por exímios remadores.34 Como previra Béhanzin, a construção do píer de Cotonu indicava que a conquista colonial estava próxima. Depois de uma resistência aguerrida e três anos de guerras, o reino do Daomé sucumbiu definitivamente com a rendição de Béhanzin, em janeiro de 1894.

A dominação colonial instaurada e mantida pela força militar implicou uma transformação dramática no Daomé e nas sociedades sob sua esfera de influência, uma população que, na virada do século XX, somava em torno de 500 mil indivíduos.35 A implementação da “estrutura colonial” comportou a ocupação territorial e mudanças sistêmicas, sem precedentes, na esfera do político, do econômico e do cultural. Uma das primeiras medidas no âmbito político, como já vimos, foi a deposição do rei Béhanzin (figura 2) e sua deportação para a Martinica, junto com quatro de suas esposas, três filhas e um filho, recebendo uma pensão que foi reduzida pelo governo francês de forma progressiva e humilhante. Impedido de retornar ao Daomé, Béhanzin acabou transferido para a Argélia em 1906, onde faleceu e foi sepultado. Apesar dos pedidos de familiares, somente em 1928 o governo francês permitiu que suas cinzas regressassem ao Daomé.

Após a rendição de Béhanzin em janeiro de 1894, os franceses entronizaram o príncipe Gucini, de forma protocolar, como rei Agoli-Agbo (Agoliágbò). Sua chegada ao poder resultou, segundo alguns, de uma traição e, segundo outros, de um acordo prévio com seu irmão Béhanzin.36 Seja como for, apesar da aparente tentativa francesa de preservar a instituição monárquica, o general Dodds, principal arquiteto da política colonial, tomou a medida de dividir o reino do Daomé em dois, e na parte sul foi recriado o antigo reino de Aladá (conquistado pelo Daomé em 1724), que passou a ser um protetorado da França. A intenção explícita do general Dodds foi enfraquecer politicamente o que restava do Daomé, onde Agoli-Agbo tornara-se rei sob os auspícios da França. Nessa conjuntura, a estratégia francesa de governabilidade passava por manter ou reinstaurar monarquias autóctones, para controlar, através delas, as populações locais. Isso ocorreu, como veremos adiante, nas localidades de Aladá, Sakété e Porto-Novo. Essa seria uma forma de governo colonial “indireto”, normalmente associado às colônias inglesas, com a qual a França flertou naquele primeiro momento. Aos poucos, porém, o sistema se mostrou inadequado para a região e diversos processos de resistência se produziram.

Fig. 19. Agoli-Agbo, entronizado pelos franceses em 1894 e destituído em 1900.

A falta de recursos do novo rei Agoli-Agbo e a concorrência dos chefes locais, nomeados pelos franceses, frustraram sua ambição de recuperar o poder dos antigos soberanos do Daomé.37 Ele começou então a conspirar contra os colonizadores, exigindo a cumplicidade dos seus súditos, “dando-lhes um fetiche para fazê-los jurar que não iriam contar nada aos brancos”.38 Em certa ocasião, teria enviado a Savalú um “feiticeiro”, chamado Boko (talvez um bokono/bokɔ́nɔ̀, isto é, um adivinho), para preparar uns “gris-gris destinados a fazer morrer todos os brancos de Abomé”.39 Agoli-Agbo acabou destituído e exilado no Gabão em 1900. A monarquia foi então suprimida de vez e a aristocracia daomeana, os clãs ahovi (axɔ́ví), com o palácio real vazio e a emergência de linhagens plebeias (anato), viu minguar seu prestígio social.

Os franceses terminaram por substituir o governo colonial “indireto” por formas de governo “direto”, com a instauração de novas unidades político-territoriais (“círculos”, “subdivisões”, “cantões”) e uma estrutura administrativa altamente hierarquizada, ocupada quase exclusivamente por funcionários brancos. No topo figurava o governador da colônia e, embaixo dele, os comandantes de círculo que, por sua vez, supervisionavam os administradores das subdivisões. Estas comportavam vários cantões ou municípios, incluindo várias aldeias. Os administradores nomeavam os “chefes de cantão” e os “chefes de aldeia” entre a população autóctone. Esses chefes locais, desprovidos de autoridade, ficavam presos num delicado exercício de mediação entre interesses amiúde conflitantes. Eram, por exemplo, responsáveis pela coleta de impostos e pelo recrutamento de homens para o exército e os trabalhos públicos (leia-se trabalhos forçados).

Mas a transformação econômica imposta pela colonização ia além desses fenômenos já bastante dramáticos. As atividades agrícolas de subsistência e o sistema mercantil tradicional, que conectava mercados locais com rotas comerciais inter-regionais de longa distância, foram aos poucos sofrendo a pressão de uma economia monetarizada, orientada para a exportação, e um modo de produção capitalista. Essa mudança para uma lógica de mercado foi processual e paulatina e, segundo Patrick Manning, só teria atingido sua completude na década de 1930.40 Ademais, inovações tecnológicas como o píer em Cotonu, a ferrovia e o telégrafo aceleraram a abertura da colônia para o exterior e a globalização.

Dentre os negociantes europeus estabelecidos na região destacavam-se, até a Primeira Guerra Mundial, os alemães e os franceses de Marselha. A mais importante transação comercial envolvia, após o fim do tráfico humano, a troca de nozes e azeite de dendê por destilados, principalmente o “anizado”. Os mesmos tonéis que iam para a Europa repletos de azeite de dendê voltavam cheios de bebida alcoólica.41 Como na época do tráfico, havia outros itens na pauta das importações, entre eles tecidos, armas e pólvora, mas o álcool sobressaía. A maioria dos tecidos importados vinha de Manchester, que conseguia produzir estampas coloridas de qualidade inferior, vendidas a preços acessíveis. Quanto aos destilados, as casas comerciais de Hamburgo dominavam o mercado.42

Ao conquistarem o Daomé, os franceses iniciaram os levantamentos topográficos que permitiriam a construção da ferrovia para o interior. Tradicionalmente, a depender dos fatores geográficos ao longo da rota escolhida, o transporte das mercadorias entre o interior e o litoral era feito ou por canoas, em rios e lagoas, ou por carregadores, que levavam a carga à cabeça, ou ainda pelos “roladores de tonéis” (rouleurs de ponchons), especialistas em conduzir os recipientes que continham azeite de dendê ou destilados. Os comerciantes europeus dependiam totalmente dos trabalhadores africanos, já que animais de montaria ou de carga, como cavalos e jumentos, não resistiam ao clima local. Arregimentar carregadores era uma tarefa difícil, e muitos eram recrutados à força, função que, como já dissemos, cabia aos chefes africanos submetidos aos franceses. As pessoas da elite – os chefes locais e todos os europeus – percorriam a região recostados em redes penduradas numa haste de madeira, cujas extremidades equilibravam-se na cabeça de um par de homens africanos, caminhando um atrás do outro.43

A construção da estrada de ferro parecia ser a solução para todas as necessidades dos europeus no Daomé. O empreendimento, privado no início e depois encampado pela administração francesa, logo se tornou um dos escândalos das concessões coloniais e da especulação financeira na bolsa de Paris no início do século xx. O ministro das Colônias contratou a construção e a exploração da estrada de ferro com uma empresa sediada em Marselha e representada por um certo sr. Borelli, que em troca receberia, além de subvenções, cerca de 100 mil hectares de terras nas margens da ferrovia, entre Cotonu e Abomé, ou seja, em áreas férteis e populosas, já exploradas pelos agricultores daomeanos. O fato de as terras não serem cercadas fazia alguns europeus pensarem que eram “terra de ninguém”, embora os daomeanos soubessem a quem pertencia cada um dos dendezeiros produtivos.44 Os trabalhos de assentamento dos trilhos iniciaram-se em 1900. No final de 1902, comerciantes africanos, agudás e europeus se aliaram a 9 mil agricultores daomeanos para exigir que o governo da colônia impedisse a cessão das terras à companhia da estrada de ferro do Daomé. De fato, a expropriação não ocorreu e o governo colonial terminou encampando a empresa ferroviária. A empreitada, porém, foi bancada, na sua totalidade, por fundos públicos obtidos de taxas recolhidas no próprio Daomé.45 A mão de obra reunida para o empreendimento envolveu não apenas homens, mas também mulheres e crianças. Os homens precisavam ficar nos canteiros de obras, que empregavam cada um mais de mil trabalhadores. Para não desfalcá-los, mulheres foram convocadas a carregar areia. Nos acampamentos masculinos, também a alimentação era fornecida pelas moças do local. Já as crianças eram encarregadas de transportar água para os trabalhadores braçais.46 A capacidade da engenharia francesa de superar obstáculos naturais impressionava os africanos: das lagoas, muitas delas sagradas para a população local, à “Lama”, a enorme depressão pantanosa que se estende entre Aladá e Abomé, todo tipo de terreno era aplainado para receber os trilhos da estrada de ferro.

Em 1905 já tinham sido construídos os 143 quilômetros entre Cotonu e a aldeia de Dan, ao norte de Abomé. Em 1907, como foi dito, os trilhos chegaram ao rio Uemê, a 247 quilômetros da costa. O destino final dessa parte do projeto, a cidade de Savé, que ficava no quilômetro 261, só seria alcançado em 1911. Uma segunda ferrovia foi construída, entre 1904 e 1908, conectando Porto-Novo e Saketé, chegando a Pobé, mais ao norte, em 1913 (ver mapa infra). O eixo ferroviário que conectava Cotonu e Savé teve grande impacto no sistema de comércio inter-regional pré-existente, favorecendo a criação de novos mercados locais nas estações, como Bohicon ou Aguagon, mas também fazendo desaparecer outros mercados mais afastados. As duas principais rotas comerciais, que ligavam as regiões interioranas do norte com o litoral, também foram afetadas. Por exemplo, na primeira delas, que conectava Grande Popo e Djogou, seguindo a fronteira ocidental da colônia, o comércio de sal experimentou um sério declínio quando a ferrovia chegou na região de Abomé, oferecendo um caminho alternativo. Já o comércio da rota oriental, que corria de Paraku até Badagri e Lagos, na vizinha colônia inglesa, começou a ser reorientado para Cotonu. Como consequência dessa mudança, os criadores de gado, que antes não se beneficiavam da ferrovia, também deslocaram a transumância para Porto-Novo e Cotonu. Ali, mesmo caro, o trem podia baratear o custo do transporte do milho, favorecendo a exportação e estimulando a produção. Contudo, a estrada de ferro não afetou o preço nem aumentou quantidade de azeite ou nozes de dendê que chegavam ao litoral. Patrick Manning explica que, como esses produtos continuavam a ser os principais na pauta de exportação do Daomé, a ferrovia ficou “condenada a um relativo fracasso”, embora constituisse uma peça chave para que o setor mercantil tradicional fosse progressivamente absorvido no modo de produção capitalista.47

 A essas transformações políticas e econômicas devemos acrescentar ainda mudanças de tipo cultural, que acabaram por ter um impacto mais duradouro e pernicioso na população local. Embora a alfabetização estivesse limitada a uma minoria de africanos, os chamados “evoluídos”, o aprendizado da língua francesa e da história da França, e a disciplinarização do corpo pelos hábitos europeus, conformaram o padrão educativo das futuras elites. O ensino ocidentalizado era complementado pela conversão ao cristianismo, pois a maioria das escolas estava sob o controle dos padres das missões católicas. Essa colonização das mentes e dos corpos era ainda reforçada pelo uso, no espaço público, de toda uma série de símbolos, bandeiras e hinos, e de cerimônias comemorativas – como a festa nacional francesa, celebrada em todas as subdivisões da colônia em 14 de julho –, que acabavam por impregnar o imaginário da população local com referências de uma cultura estrangeira. A situação colonial foi, assim, um processo histórico de mudança radical que as fotografias de Fortier conseguem capturar de forma exemplar.

Contudo, esse processo de dominação não ocorreu sem enfrentar as forças de resistência. Os daomeanos não aceitaram sempre de forma passiva a imposição da autoridade estrangeira. Já mencionamos as atitudes subversivas, apelando a recursos espirituais, do rei Agoli-Agbo. Sob a vigilância desconfiada das autoridades francesas, os rituais periódicos em honra aos antepassados da realeza – o culto aos Nesuhue (Nɛ̀súxwé) – também continuaram a ser celebrados. Esse espaço da devoção aos voduns, codificado num idioma que escapava ao entendimento dos colonizadores, permitia a ativação da memória local e formas simbólicas de contestação à dominação política. Assim, o campo religioso, que podia aparecer ao europeu como uma forma de alienação ou folclore, funcionava para o daomeano como um espaço de afirmação nacional.

Além dessa resistência de “baixa intensidade”, houve em outras regiões atitudes mais conflituosas. A oeste, na fronteira com a colônia alemã do Togo, no território dos adjas (ajă) e dos houés, onde se localizava o antigo reino de Tado (Tádò), ocorreram sérios confrontos, e o seu rei, Pohizon (Kpoyizu), acabou, como Agoli-Agbo, exilado no Gabão em 1900.48 Ao norte de Porto-Novo, na região dos holis ou holi-idjes, houve uma ferrenha resistência à penetração francesa, que perdurou de 1905 a 1910, antes de ser sufocada em 1911.49 Isso demonstra que, embora a administração colonial tendesse a enfatizar a tranquilidade da colônia, o andamento positivo dos trabalhos de coleta de impostos e o recrutamento forçado de jovens para o trabalho na construção da ferrovia, os processos de contestação foram contínuos. De fato, no mês de maio de 1908, coincidindo com a visita do ministro das Colônias, marcada por um espírito geral de festejos públicos, tinham sido liberados da prisão os chefes de uma revolta, eclodida no ano anterior, contra um decreto que impunha novos impostos.50 Já em Abomé, na mesma ocasião, havia calma política, e o administrador escrevia: “Os ‘fons’ [são] maleáveis, disciplinados, trabalhadores; os ‘príncipes’, geralmente preguiçosos e intrigantes. Os chefes continuam a ser auxiliares preciosos para o Residente [Le Herissé], e as recompensas oferecidas pelo ministro das Colônias estimularam seu zelo, ao mesmo tempo que satisfizeram seu amor-próprio”.51